Bots, comentários e a forma como moldam o que pensamos
O espaço digital em 2025 já não é apenas feito de utilizadores reais. Uma parte significativa das interações nas redes sociais vem de bots, programados para comentar, reagir e até criar discussões. O problema? A forma como estes pequenos fragmentos de código conseguem influenciar a nossa perceção e, muitas vezes, a nossa própria opinião.
Neste artigo, partilho alguns dados recentes sobre a dimensão do fenómeno e deixo pistas para perceber como podemos (enquanto utilizadores e enquanto marcas) navegar neste ambiente de ruído e manipulação.
1. Quantos bots existem afinal?
Os números são claros:
- 20% das conversas online sobre eventos globais são geradas por bots.
- Em 2023, 49,6% de todo o tráfego da Internet já era atribuído a bots.
- E em 2024, os bots ultrapassaram os humanos e chegaram a 51% do tráfego.
- Apesar de serem minoria em número, os bots têm papel central no início da viralização de notícias falsas ou de baixa credibilidade.
Ou seja: muitas vezes, aquilo que parece um “consenso” na caixa de comentários é, na
verdade, uma ilusão criada por máquinas
2. O poder da caixa de comentários
Imagine este cenário: um criador faz um vídeo a elogiar um hotel. O conteúdo é positivo, transparente e real. Mas ao abrir a caixa de comentários, aparecem dezenas de mensagens negativas. Quem vê, naturalmente, questiona-se: será que o vídeo é exagerado? Será que eu não vi o que devia?
Este efeito psicológico, conhecido como bandwagon Effect, é amplificado pelos bots. Ao multiplicarem uma opinião artificial, conseguem transformar perceções e, em plataformas como TikTok, influenciam sobretudo gerações mais novas, que vivem mais intensamente a validação social.
3. Fake news e clickbait
Mas não são só os bots que moldam a opinião. As próprias marcas, na ânsia de captar atenção, recorrem muitas vezes a estratégias de clickbait.
Um exemplo simples: a capa de um carrossel no Instagram pode prometer algo como “10 pessoas comem 6 laranjas por dia”. Mas ao abrir o conteúdo, descobre-se que a estatística se refere apenas a uma pequena aldeia num país distante.
O título foi eficaz em gerar cliques, mas deixou atrás de si uma sombra de desconfiança.
4. O que significa para os utilizadores
- Questionar sempre. Nem tudo o que se lê ou vê nos comentários é humano.
- Ir além do título. Leia o artigo completo, procure a fonte, confirme os dados.
- Analisar padrões. Comentários repetitivos, perfis recentes ou frases genéricas podem ser sinais claros de bots.
5. O que significa para as marcas
- Autenticidade é chave. Bots podem dar números, mas nunca dão confiança.
- Clickbait responsável. Um título forte pode atrair, mas o conteúdo precisa de entregar o que promete.
- Comunicar com clareza. Explicar processos, mostrar bastidores e assumir erros são hoje sinais de força, não de fraqueza.
Conclusão
A internet de 2025 é um palco onde humanos e bots convivem. Para uns, é um desafio de leitura crítica; para outros, uma oportunidade de comunicação transparente.
Como utilizadores, cabe-nos filtrar melhor a informação. Como marcas, cabe-nos resistir à tentação fácil da manipulação.
No fim, os bots podem inflar números, mas nunca criam relações duradouras. O que realmente fica é a confiança.


